segunda-feira, 13 de julho de 2020

A Guerra do Pacífico e outras Histórias (Parte I)

A Guerra do Pacífico e outras Histórias (Parte I)

            No passado o território que compõe o atual Estado da Bolívia era uma parte dos mais de 900 mil quilômetros quadrados controlados pelo Império Inca. Aquela região da chamada América Andina encerrava as maiores reservas de prata que os olhos europeus já tinham contemplado. Ali estava, ou ainda está localizada a outrora resplandecente Potosí, cidade que com a riqueza gerada pelas minas de prata transformou-se, por volta de 1650, numa das maiores cidades do mundo, igualando-se a Londres e superando Sevilha, Madri e Roma em número de habitantes.

            Toda a Prata de Potosí, assim como as reservas das demais minas conhecidas pelos povos que habitavam as áreas do Império Inca, foi transferida para a Espanha, naquilo que se constituiu em um dos maiores saques conhecidos pela história humana. O historiador Pierre Villar estima que entre os anos de 1551 a 1560 algo em torno de 16.179.638 kg de prata contribuído para alimentar o metalismo da política mercantilista espanhola. Boa parte desse metal saiu de Potosí, hoje uma das cidades mais pobres da América.

            Na época da prata, séculos XVI e XVII, os reinos europeus estavam ávidos por metais amoedáveis – ouro e prata – para saciar a “fome monetária” herdada da grande crise do século XIV. Esgotadas as reservas minerais a América espanhola assumiria outras funções na ordem colonial mercantilista ditada pela burguesia e pelos Estados europeus. A empresa agrícola monocultora, escravocrata, latifundiária e exportadora substituiu as minas na função histórica de enriquecer a metrópole ibérica.

                        O Alto Peru, como era conhecida a região que deu origem àquela nação, foi uma das primeiras colônias sul americanas a se rebelar contra o domínio espanhol. Ali o processo emancipacionista teve início em 1809. A libertação só veio em 1825. Desde então a nação que recebeu o nome do libertador Simon Bolívar vem sendo vitimada por sucessivas ações espoliativas por parte das potências que substituíram Portugal e Espanha no controle desta parte do mundo, primeiro a Inglaterra e depois os Estados Unidos da América.

            No século XIX a região da outrora rica e brilhante Potosí permanecia cumprindo a mesma função histórica, mas a prata só servia então para alimentar os sonhos dos sequiosos capitalistas europeus e norte-americanos. O capitalismo havia modificado o seu perfil e possuía novos endereços. Banqueiros e industriais esparramavam suas empresas sediadas na Inglaterra, França, e Estados Unidos da América, os filhos mais pródigos da burguesia européia, para as áreas mais distantes do planeta. Outras potências seguiam os mesmos passos das velhas especialistas em usurpação da riqueza alheia, e partiam para uma nova aventura: a corrida imperialista para a montagem de novas formas de colonização, o neocolonialismo. Com a mesma avidez os impérios cravariam os dentes na garganta da América – agora chamada de Latina.

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